Fernanda

Fernanda tem 11 anos e na escola é conhecida por ser mentirosa (é verdade). Recentemente denunciou um colega por ter pego o lanche de outro. Que injustiça! Apesar disso realmente ter acontecido, o ladrãozinho jurou de pés juntos que foi ela quem roubou. E por conta da sua fama, ficou de castigo em casa.

Ruiva como uma abóbora e magra de achar que as costelas irão rasgar sua pele, sonha com os seios fartos que vê nas mulheres da revista. Pergunta se um dia será tão importante quanto sua mãe e se tão adorada quanto a menina popular da turma. Toda vez que pensa no futuro, acredita em mentiras. Um dia o espelho irá arrancar fora seu sorriso.

Mas não se abalem! Fernanda tem amigos e sempre fala deles. Todos a chamam de Fer. Ela sempre gostou desse apelido, até descobrir que na verdade Fer vinha de “ferrugem” e isso a fez chorar por alguns dias seguidos, mesmo que isso ainda faça tantos amigos rirem.

Fer tem um irmão mais velho. Loiro. Todos os amigos acham que é mais uma mentira, já que nunca o viram. Mas é verdade que ele existe. E também que se matou fazem 2 anos e os pais contaram outra história. Ela acredita que o irmão foi morar com a vó na Alemanha para aprender uma nova língua. A avó alemã que nunca conheceu também nunca existiu. De vez em quando Fernanda pede aos pais pra ficar com o irmão. Talvez algo dentro dela saiba que para isso precise morrer e esse é o desejo mais verdadeiro sobre o qual ela mais mente.

Ela tem um tipo de mentira que funciona bem: alergia. (Também confundir com alegria.) Contou ser alérgica à flor para não ter que segurar uma, na vez em que um amigo pediu essa gentileza para que ele pudesse vestir o casaco. Nunca mais se viu em situação parecida. Outro dia pediu ao seu pai que não fosse à aula por conta da sua alergia ao sol. Não era uma mentira completa, já que em poucos minutos de caminhada ficava com seu cabelo mais vermelho que tomate maduro e sempre chegava na escola suada e fedida. O pai não respondeu. Talvez ele só não tenha ouvido.

Nas tardes que está sozinha em casa (quase todas), Fer assiste “Carrie – A estranha”. Sim, sempre o mesmo filme. Ela repete as falas da protagonista e imita com um tom de voz diferente cada vez. Finge que está no filme e até uma roupa parecida usa. Já decorou quase todos os diálogos. Mentira. Ela nunca fez isso de verdade, mas sempre pensou que seria legal fazer.

No próximo mês completa 12 anos. Dizem que essa é uma boa idade, o corpo das meninas mudam, os garotos começam a se interessar mais por elas e as notam de forma diferente. A ideia de ser vista de outro jeito é agradável. Mas calma lá, Fernanda. Você ainda terá muito desaforo para ouvir e decepções para viver. Alguns meninos não serão legais, seus peitos não irão crescer e você não será importante como sua mãe. Vão dizer que ser magra é bom, mas isso não significa que será o suficiente para você se sentir bonita. Mas não se preocupe. Algumas pessoas simplesmente não dão certo mesmo.Colagem - Fernanda

She Liv

Ando me questionando sobre como leio livros. Me recuso a entrar no mar sem ter vontade de me molhar. E com isso, só leio livros que de algum modo se conectam comigo.

Mas não sobre isso, e sim sobre a forma que os leio, me lembrei de dois episódios que devorei livros. O primeiro foi quando eu tinha uns dez anos e lia um desses suspenses juvenis. Eu mergulhei na história, pensava nela o tempo todo, até que percebi que se eu continuasse a leitura no ritmo frenético que estava, logo chegaria ao fim. Com medo daquela experiência incrível acabar, fechei o livro e guardei na gaveta. Deixei ele lá e o esqueci. Quando abri novamente, muito tempo depois, a onda já tinha passado, e não me lembrava direito quem era quem.

Noutro episódio, chegando nos vinte anos, peguei emprestado o livro de uma amiga, e novamente tive a experiência devoradora. A história não era o que me envolvia, mas a personagem sim, era profunda e emocionante. Mergulhei de cabeça. Dessa vez não poupei o final. Inclusive fui deitar cedo para ler mais e peguei no sono. Despertei durante a madrugada, preocupada por ter cochilado no meio da leitura e terminei o livro, às pressas e aos prantos.

Eventualmente eu devoro livros. Quando isso ocorre, é porque me conectei com aquele universo. Fico curiosa e obcecada com a leitura. Faço um pacto com o diabo: minha vida em troca de um mergulho nas ondas daqueles parágrafos. Quero me transformar na personagem, dizer o que ela diz, xingar, namorar, transar, mentir, matar e morrer da mesma forma que ela. Quero sua personalidade, seus anseios e suas experiências. Conhecer todos os lugares da história, entrar nos museus, nas praças, almoçar a mesma comida, dormir na mesma cama. Quando devoro livros, tudo o que eu peço é para viver outra vida. Ser outra pessoa. Afogar a protagonista e me colocar no lugar dela. Devoradora de entranhas, canibal.

Mas tem outro tipo de livro que isso não ocorre. Se começo a devorá-lo, me engasgo e vomito. Protagonistas que leio enquanto vejo meu reflexo no espelho das páginas necessitam que eu as deguste calmamente para que a digestão não seja traumática. Degustar livros, é perceber o aroma dos significados, entender a composição das palavras e apreciar o sabor dos personagens. É ir com (c)alma, com tempo. É nadar em águas profundas sabendo do perigo de morrer afogada.

Isso tem acontecido com o livro que estou lendo de novo: Mutações, da Liv Ullmann. Eu tinha iniciado a leitura, mas andava dispersa demais e não dei conta. Parei. Minha fome era canibal, mas precisei aprender a degustar. Passaram-se alguns anos e o retomei. A minha identificação com ela é constrangedora. Leio esse livro com muita (a)tens(ç)ão. Uma palavra por vez, com uma cautela às vezes congelante. Não sei o que vem a seguir. Já li, distraída, parágrafos inteiros para no final receber o soco na garganta que me aguardava. Pratiquei o foco e descobri o ingrediente secreto: respeito. Leio a mutação da Liv e penso na coragem que foi lançar esse livro, se expor sem máscaras, sem vergonha e com muita honestidade. A conexão que tenho com ela, infelizmente não é com a transparência – antes fosse (e sobre isso, tenho vontade de devorá-la). Eu me identifico com o olhar. A observação no comportamento dos outros, as relações obcecadas, a crueldade consigo mesma, a pressão de nunca achar que está bom o suficiente e que estar sozinha pode não ter a ver com o físico. Quando leio uma nova linha, a verdade – esse soco de palavras que sangra na minha garganta – dói e engulo com um gosto amargo. A digestão está comprometida. Essa mulher escreve o que ela diz, mas eu leio o que quero. Quantas vezes li o que quis? É(eu) preciso praticar o foco para ler o que ela está dizendo. Mesmo sendo tão clara.

Seguimos.

Descendo alguns metros nas águas profundas, me questiono em relação ao poder das palavras. Melhor, se minhas palavras falam o que querem dizer. Ou ainda: eu sei? E a respeito disso, só consigo pensar sobre aprender a me ouvir. Rubem Alves no início do seu texto “Escutatória” diz:

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. 
Nunca vi anunciado curso de escutatória.
Todo mundo quer aprender a falar.
Ninguém quer aprender a ouvir.
(…)”

Ele fala muito em relação a escutar o outro, e como temos uma necessidade esquisita de complementar a fala do outro, como se não bastasse o que ele diz. Mas não só sobre isso, mas também em relação a como não escutamos o que nós mesmos falamos. Digo por experiência própria. Tem tanta coisa que eu falo mas não ouço, e a resposta é tão evidente quando a gente se escuta, não é mesmo?

Ok, já estou a dias trabalhando nesse texto. Já o devorei e degustei algumas vezes. Vomitei em todas. Vou me matricular no curso do Rubem Alves e refazer o pacto com o diabo: praticar apneia no oceano das minhas palavras. Ler o que escrevi, repetidas vezes, em voz alta. Até ouvir tudo que estou dizendo. Receosa, me arrisco a dizer que com essas medidas poderei enfim degustar a protagonista da minha vida e desejar ser ela ao ponto de conectar comigo e me digerir sem traumas, sem canibalismo. É preciso ouvir o que se diz, Lígia.

Seguimos.

liv-ullmann

O maestro

Estava escuro não por falta de luz, mas porque assim era esse lugar: móveis e paredes pretas, uma iluminação amareladamente fraca. As cortinas de veludo vermelho deixavam o ambiente aconchegante e perturbador. O salão era amplo e o lugar estava cheio. Todas as mesas ocupadas da mesma forma: duas pessoas sentadas uma de frente para a outra. Tocava uma música clássica. O volume estava tão alto que ninguém conversava, só se observavam.

No fundo do bar, do lado de dentro do balcão havia um homem de terno e corpo esguio. Ele olhava para as caixas de som que estavam a sua frente. Observava de modo investigativo.

Perto da porta, haviam duas mulheres que se olhavam fixamente. Estavam assim desde que chegaram. As mãos sobre a mesa, muito próximas de se encostarem. Enquanto uma analisava o modo em que os cabelos pretos e longos caiam sobre o rosto da outra, esta percebia por onde os olhos da primeira rodavam. Almas enlaçadas vivendo exclusivamente para a outra.

O homem do bar ensaiava orquestrar. Ele não era maestro e a música não era ao vivo. Experimentava mexendo lentamente uma mão, depois a outra. Logo encontrou o ritmo e passou a puxar as ondas sonoras para si, como se estivesse bebendo do vento em um dia de verão com sol escaldante. Sorriu. Foi a primeira expressão no rosto de alguém naquela noite. Aos poucos foi direcionando o que saía das caixas de som para o salão. Indicava para onde aquela música deveria ir e um som novo, estridente, começou a surgir.

Não abalou ninguém, apesar do barulho perturbador. Todos estavam concentrados demais olhando uns aos outros e não perceberam a mudança da música. O som passou a ficar sutilmente histérico, como um pedido de socorro de alguém encarcerado há anos. O maestro rodava o som pelo salão, numa velocidade cada vez mais intensa. Um tornado ensurdecedor se aproximava.

As pessoas. Os olhos fixos. Algo começou a mudar. Aquelas duas mulheres foram as primeiras a, lentamente, acordarem do mergulho no universo paralelo em que se encontravam. As cabeças mexiam devagar. Os dedos descolavam da mesa e os olhos esbranquiçavam. Dividiam o mesmo espaço, mas não eram capazes de notar a mudança que acontecia com a outra a sua frente. Estavam cegas, hipnotizadas por dentro. O maestro controlava o volume da música para um tom mais sóbrio e aos poucos o som deixava de ser estridente para ser um ruído baixo e contínuo, como o de um motor de uma geladeira velha.

Uma luz entrou. Alguém abria a porta. Uma nova pessoa chegou no bar. Abriu o cardápio e olhou em volta. Sentou sozinha na mesa, como todos naquele lugar.

É (d)ela

Ela não sabe o que quer. Eu sei. Ela vem me dizer todos os dias que eu tenho que fazer alguma coisa. Que não posso deixar para amanhã. “Precisa ser hoje! Precisa ser hoje!” Ela grita no meu ouvido e eu peço “Por favor, fala mais baixo.” E quanto mais eu peço, mais alto ela grita.

“Tudo bem. Eu vou fazer, mas não agora. Eu tô fazendo outra coisa.” – Eu respondo.

Mas ela fica indignada, grita na minha cara, bate o pé que nem criança mimada e diz que estou mentindo, que não tô fazendo nada que importe e que tenho que fazer agora, urgente!

Passou um dia, passou dois, três, um mês. E ela já não gritava mais, estava calma, no canto, quieta, quase sem voz, e então percebi que tinha passado tempo demais. Peguei um prato de sopa quente e um cobertor e entreguei a ela.

Ela sorriu e me agradeceu. “Eu que te agradeço.”

Agora o que ela diz, eu faço. A voz dela precisa ser dita. Para eu ouvir.

Não é ela que desdiz, sou eu quem a desdigo. Ainda tenho muito a aprender.