É (d)ela

Ela não sabe o que quer. Eu sei. Ela vem me dizer todos os dias que eu tenho que fazer alguma coisa. Que não posso deixar para amanhã. “Precisa ser hoje! Precisa ser hoje!” Ela grita no meu ouvido e eu peço “Por favor, fala mais baixo.” E quanto mais eu peço, mais alto ela grita.

“Tudo bem. Eu vou fazer, mas não agora. Eu tô fazendo outra coisa.” – Eu respondo.

Mas ela fica indignada, grita na minha cara, bate o pé que nem criança mimada e diz que estou mentindo, que não tô fazendo nada que importe e que tenho que fazer agora, urgente!

Passou um dia, passou dois, três, um mês. E ela já não gritava mais, estava calma, no canto, quieta, quase sem voz, e então percebi que tinha passado tempo demais. Peguei um prato de sopa quente e um cobertor e entreguei a ela.

Ela sorriu e me agradeceu. “Eu que te agradeço.”

Agora o que ela diz, eu faço. A voz dela precisa ser dita. Para eu ouvir.

Não é ela que desdiz, sou eu quem a desdigo. Ainda tenho muito a aprender.