She Liv

Ando me questionando sobre como leio livros. Me recuso a entrar no mar sem ter vontade de me molhar. E com isso, só leio livros que de algum modo se conectam comigo.

Mas não sobre isso, e sim sobre a forma que os leio, me lembrei de dois episódios que devorei livros. O primeiro foi quando eu tinha uns dez anos e lia um desses suspenses juvenis. Eu mergulhei na história, pensava nela o tempo todo, até que percebi que se eu continuasse a leitura no ritmo frenético que estava, logo chegaria ao fim. Com medo daquela experiência incrível acabar, fechei o livro e guardei na gaveta. Deixei ele lá e o esqueci. Quando abri novamente, muito tempo depois, a onda já tinha passado, e não me lembrava direito quem era quem.

Noutro episódio, chegando nos vinte anos, peguei emprestado o livro de uma amiga, e novamente tive a experiência devoradora. A história não era o que me envolvia, mas a personagem sim, era profunda e emocionante. Mergulhei de cabeça. Dessa vez não poupei o final. Inclusive fui deitar cedo para ler mais e peguei no sono. Despertei durante a madrugada, preocupada por ter cochilado no meio da leitura e terminei o livro, às pressas e aos prantos.

Eventualmente eu devoro livros. Quando isso ocorre, é porque me conectei com aquele universo. Fico curiosa e obcecada com a leitura. Faço um pacto com o diabo: minha vida em troca de um mergulho nas ondas daqueles parágrafos. Quero me transformar na personagem, dizer o que ela diz, xingar, namorar, transar, mentir, matar e morrer da mesma forma que ela. Quero sua personalidade, seus anseios e suas experiências. Conhecer todos os lugares da história, entrar nos museus, nas praças, almoçar a mesma comida, dormir na mesma cama. Quando devoro livros, tudo o que eu peço é para viver outra vida. Ser outra pessoa. Afogar a protagonista e me colocar no lugar dela. Devoradora de entranhas, canibal.

Mas tem outro tipo de livro que isso não ocorre. Se começo a devorá-lo, me engasgo e vomito. Protagonistas que leio enquanto vejo meu reflexo no espelho das páginas necessitam que eu as deguste calmamente para que a digestão não seja traumática. Degustar livros, é perceber o aroma dos significados, entender a composição das palavras e apreciar o sabor dos personagens. É ir com (c)alma, com tempo. É nadar em águas profundas sabendo do perigo de morrer afogada.

Isso tem acontecido com o livro que estou lendo de novo: Mutações, da Liv Ullmann. Eu tinha iniciado a leitura, mas andava dispersa demais e não dei conta. Parei. Minha fome era canibal, mas precisei aprender a degustar. Passaram-se alguns anos e o retomei. A minha identificação com ela é constrangedora. Leio esse livro com muita (a)tens(ç)ão. Uma palavra por vez, com uma cautela às vezes congelante. Não sei o que vem a seguir. Já li, distraída, parágrafos inteiros para no final receber o soco na garganta que me aguardava. Pratiquei o foco e descobri o ingrediente secreto: respeito. Leio a mutação da Liv e penso na coragem que foi lançar esse livro, se expor sem máscaras, sem vergonha e com muita honestidade. A conexão que tenho com ela, infelizmente não é com a transparência – antes fosse (e sobre isso, tenho vontade de devorá-la). Eu me identifico com o olhar. A observação no comportamento dos outros, as relações obcecadas, a crueldade consigo mesma, a pressão de nunca achar que está bom o suficiente e que estar sozinha pode não ter a ver com o físico. Quando leio uma nova linha, a verdade – esse soco de palavras que sangra na minha garganta – dói e engulo com um gosto amargo. A digestão está comprometida. Essa mulher escreve o que ela diz, mas eu leio o que quero. Quantas vezes li o que quis? É(eu) preciso praticar o foco para ler o que ela está dizendo. Mesmo sendo tão clara.

Seguimos.

Descendo alguns metros nas águas profundas, me questiono em relação ao poder das palavras. Melhor, se minhas palavras falam o que querem dizer. Ou ainda: eu sei? E a respeito disso, só consigo pensar sobre aprender a me ouvir. Rubem Alves no início do seu texto “Escutatória” diz:

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. 
Nunca vi anunciado curso de escutatória.
Todo mundo quer aprender a falar.
Ninguém quer aprender a ouvir.
(…)”

Ele fala muito em relação a escutar o outro, e como temos uma necessidade esquisita de complementar a fala do outro, como se não bastasse o que ele diz. Mas não só sobre isso, mas também em relação a como não escutamos o que nós mesmos falamos. Digo por experiência própria. Tem tanta coisa que eu falo mas não ouço, e a resposta é tão evidente quando a gente se escuta, não é mesmo?

Ok, já estou a dias trabalhando nesse texto. Já o devorei e degustei algumas vezes. Vomitei em todas. Vou me matricular no curso do Rubem Alves e refazer o pacto com o diabo: praticar apneia no oceano das minhas palavras. Ler o que escrevi, repetidas vezes, em voz alta. Até ouvir tudo que estou dizendo. Receosa, me arrisco a dizer que com essas medidas poderei enfim degustar a protagonista da minha vida e desejar ser ela ao ponto de conectar comigo e me digerir sem traumas, sem canibalismo. É preciso ouvir o que se diz, Lígia.

Seguimos.

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