O maestro

Estava escuro não por falta de luz, mas porque assim era esse lugar: móveis e paredes pretas, uma iluminação amareladamente fraca. As cortinas de veludo vermelho deixavam o ambiente aconchegante e perturbador. O salão era amplo e o lugar estava cheio. Todas as mesas ocupadas da mesma forma: duas pessoas sentadas uma de frente para a outra. Tocava uma música clássica. O volume estava tão alto que ninguém conversava, só se observavam.

No fundo do bar, do lado de dentro do balcão havia um homem de terno e corpo esguio. Ele olhava para as caixas de som que estavam a sua frente. Observava de modo investigativo.

Perto da porta, haviam duas mulheres que se olhavam fixamente. Estavam assim desde que chegaram. As mãos sobre a mesa, muito próximas de se encostarem. Enquanto uma analisava o modo em que os cabelos pretos e longos caiam sobre o rosto da outra, esta percebia por onde os olhos da primeira rodavam. Almas enlaçadas vivendo exclusivamente para a outra.

O homem do bar ensaiava orquestrar. Ele não era maestro e a música não era ao vivo. Experimentava mexendo lentamente uma mão, depois a outra. Logo encontrou o ritmo e passou a puxar as ondas sonoras para si, como se estivesse bebendo do vento em um dia de verão com sol escaldante. Sorriu. Foi a primeira expressão no rosto de alguém naquela noite. Aos poucos foi direcionando o que saía das caixas de som para o salão. Indicava para onde aquela música deveria ir e um som novo, estridente, começou a surgir.

Não abalou ninguém, apesar do barulho perturbador. Todos estavam concentrados demais olhando uns aos outros e não perceberam a mudança da música. O som passou a ficar sutilmente histérico, como um pedido de socorro de alguém encarcerado há anos. O maestro rodava o som pelo salão, numa velocidade cada vez mais intensa. Um tornado ensurdecedor se aproximava.

As pessoas. Os olhos fixos. Algo começou a mudar. Aquelas duas mulheres foram as primeiras a, lentamente, acordarem do mergulho no universo paralelo em que se encontravam. As cabeças mexiam devagar. Os dedos descolavam da mesa e os olhos esbranquiçavam. Dividiam o mesmo espaço, mas não eram capazes de notar a mudança que acontecia com a outra a sua frente. Estavam cegas, hipnotizadas por dentro. O maestro controlava o volume da música para um tom mais sóbrio e aos poucos o som deixava de ser estridente para ser um ruído baixo e contínuo, como o de um motor de uma geladeira velha.

Uma luz entrou. Alguém abria a porta. Uma nova pessoa chegou no bar. Abriu o cardápio e olhou em volta. Sentou sozinha na mesa, como todos naquele lugar.

É (d)ela

Ela não sabe o que quer. Eu sei. Ela vem me dizer todos os dias que eu tenho que fazer alguma coisa. Que não posso deixar para amanhã. “Precisa ser hoje! Precisa ser hoje!” Ela grita no meu ouvido e eu peço “Por favor, fala mais baixo.” E quanto mais eu peço, mais alto ela grita.

“Tudo bem. Eu vou fazer, mas não agora. Eu tô fazendo outra coisa.” – Eu respondo.

Mas ela fica indignada, grita na minha cara, bate o pé que nem criança mimada e diz que estou mentindo, que não tô fazendo nada que importe e que tenho que fazer agora, urgente!

Passou um dia, passou dois, três, um mês. E ela já não gritava mais, estava calma, no canto, quieta, quase sem voz, e então percebi que tinha passado tempo demais. Peguei um prato de sopa quente e um cobertor e entreguei a ela.

Ela sorriu e me agradeceu. “Eu que te agradeço.”

Agora o que ela diz, eu faço. A voz dela precisa ser dita. Para eu ouvir.

Não é ela que desdiz, sou eu quem a desdigo. Ainda tenho muito a aprender.