A cicatriz

Faziam duas semanas que a minha vizinha tinha me dado de presente um skate, no meu aniversário de 10 anos. Empolgada com o novo brinquedo, eu sempre ia pra pista perto da minha casa treinar as manobras. O Arthur ia comigo, mas ele sabia tanto quanto eu: ou seja, nada. A gente aprendia junto e alternava o skate: às vezes eu, às vezes ele. Quando ele caía e se machucava, eu dizia que era para cuidar pra não ficar cicatriz. Ele ria, mas eu falava sério. Não queria marca nenhuma em mim. Eventualmente eu me ralava enquanto tentava os movimentos e era claro que uma hora ia me machucar de verdade. Até que um dia aconteceu.

Eu estava entrando na cozinha no dia que bati a cabeça na quina do balcão. Não foi uma batida muito forte, mas o suficiente para que fizesse um corte na minha cabeça e me deixasse vendo estrelas. O Chuck, nosso labrador surdo, estava deitado na sala, não viu nada acontecer. Mas minha mãe ficou em pânico quando viu o sangue escorrendo pelo meu rosto. Aconteceu quando eu conversava com o Arthur enquanto ia até a geladeira. Era certo que ia dar algum problema. Ele estava do meu lado enquanto eu caminhava distraída contando sobre a famigerada manobra. Eu gesticulava animada e imitava o movimento, até que bum! Cabeça na quina, buraco no testa, sangue tapando minha pele e minha mãe desesperada não sabendo o que fazer primeiro. Botou a toalha para estancar o sangue numa mão e na outra o telefone. Desesperada, ela pressionou o telefone contra a minha testa para conter todo aquele sangue em mim.

– Calma, mãe – eu falei. E devolvi o telefone ensanguentado para ela.

Ela tremia enquanto corrigia, me entregando a toalha molhada. Segurou forte meu braço, me levando para o carro. Pedi para o Arthur ir junto. Ele me olhava estranho e eu fiquei preocupada.
Íamos nós três para o hospital. Minha mãe disfarçando o nervosismo, o Arthur com os olhos fixos e esbugalhados e eu ensanguentada enquanto via a chuva pela janela.

O carro parou. Muito trânsito, muita gente, não tinha como ir pra lugar algum. Minha mãe ligando para o hospital, o Arthur chorando baixinho e eu me perguntando que horas eram. Eram quase 15h, lembrei que recém tinha visto no relógio da cozinha antes do acidente.

– Filha, tudo bem?
– Uhum
– Como está o sangue?
Tirei a toalha da testa e vi que já estava seco.
Ela me olhou e passou a toalha no meu rosto para limpar o sangue que tinha me sujado.
– Vai demorar pra chegar? – perguntei.
– Não sei, não temos por onde ir. Estou ligando para a emergência para ver o que podemos fazer.

Fechei os olhos. Já estava cansada e minha testa latejava muito. Fiquei pensando em quantos pontos levaria e se a cicatriz me deixaria estranha. O barulho da chuva foi me acalmando. Segurei a mão do Arthur e ele abriu a minha janela. Coloquei a cabeça para fora e abri a boca. Engoli um pouco de chuva e deixei ela molhar meu rosto.
Cada gota gelada que caía em mim me limpava. A chuva aumentava e lavava meu rosto, meu cabelo, meu pescoço. Minha lucidez voltava.

Eu estava em casa. Ainda. O Chuck lambia minha cara enquanto eu abria meus olhos. Olhei pro lado e vi o Arthur deitado, de mãos dadas comigo, me olhando. Eram 15h. Tentei me levantar mas minha cabeça estava muito pesada. Passei a mão na testa e vi muito sangue. Pedi para o Arthur ligar para a minha mãe.

– Diz para ela ligar para a emergência. Estou sangrando.

O Arthur ficou me olhando. Ele segurava minha mão, cada vez mais forte.

– Liga! – falei mais alto e comecei a chorar.

Ele não se movia. Estava igual a mim, estático. Estava igual a mim, deitado no chão, de mãos dadas, chorando, incapaz de se levantar e ligar para a minha mãe. Eu implorava para que ele fizesse algo, mas ele só me olhava assustado.
Tentei me acalmar. Lembrei que próximo a esse horário a vizinha vem pra dar comida ao Chuck. Ela vai me ver. Eu vou estar aqui deitada e ela vai me ver. Eu bati com a cabeça na quina de cozinha. Um bom lugar para se machucar. O meu skate ficou na sala. Ela vai ver o skate, entrar na cozinha, pegar a ração, me ver e me salvar. Tudo estará bem.
Tudo ficará bem.
Tudo ficará.
Tudo.
Tu.

– Vem Chuck, fica aqui comigo. O Arthur não está muito bem hoje.