Sacha – carta 3

Deixei passar seu aniversário de propósito. Foi na semana passada. Me lembrei uns dias antes e outros depois. No dia mesmo, esqueci. Você faria 33. Pensei que talvez não se deva comemorar aniversário de vida de quem não está mais aqui. Preciso pensar melhor sobre isso.

Mas hoje, sete dias depois eu lembrei de você e chorei. Chorei porque terminei de ler um livro em que os protagonistas morrem, nenhum ao acaso como foi com você, mas me deu um nó na garganta, quis saber como ficaram todas as outras pessoas da história. É um livro sobre vidas que existiram. Acho que vou escrever pra autora e perguntar como ela se sentiu, pra ver se foi como eu. Se depois de alguns anos a dor diminuiu ou se toda vez que ela pensa por tempo demais neles, dói igual. Deixa pra lá.

Quando eu tinha 24 anos, eu achava que você ainda tinha muito pra viver e que se foi muito cedo. Hoje, eu aos 27, me questiono sobre a minha vida, se a vivo como gostaria de ter vivido no dia em que eu morrer. Não quero partir com a sensação de que não fui significativa. Ok, depois que morrer não há nada o que fazer, mas não posso deixar de pensar nisso enquanto estou aqui. Não quero ir no começo de alguma coisa. Não posso morrer agora. Eu começo todo dia uma coisa nova. E se eu morrer antes de acabar de escovar os dentes, como fica meu hálito? Ou quando finalmente terminar de juntar dinheiro pra comprar um apartamento, como vou fazer a mudança? E se na véspera de uma viagem muito aguardada acontecer alguma coisa? Não vou conhecer nada? Como fica tudo que eu não terminei? Tudo que não comecei? Como ficam todos que ficam?
As últimas vezes que te escrevi eu estava mais positiva. Não que eu não esteja num momento bom, não confunda. Mas hoje a vontade de te escrever veio depois de um momento mais melancólico.

Uma carta por ano. Antecipei a terceira. Nos dois últimos novembros eu mentalizava bastante para não chorar no dia do seu novo aniversário (nunca deu certo, sempre chorei). Ou de não lamentar por você não estar mais aqui. Não devo me lamentar, não há nada que eu poderia ter feito. Mesmo se houvesse, não caberia a mim a sua vida. O pior da morte é essa impotência que dá na gente. Mas nas outras vezes o trabalho mental funcionava e o texto saía florido, com saudades amorosas e lembranças afetuosas de tempos que não voltam mais. Porque nenhum volta. Nem dos que ainda estão vivos.

Bom, os parabéns atrasados não parecem fazer o menor sentido, então só deixo essa foto linda que encontrei outro dia na casa da minha mãe. Nós dois. De tempos que não me lembro, com cara de foto ao acaso. Só de nos ver já fico feliz. Eu com a cara igual a sua. Não essa que você tá na foto, mas com a sua outra cara. Aquela que vejo em mim todos os dias.

Saudades do seu abraço,

Lígia

*Pensei muito em publicar o texto, mas toda vez que leio alguém que compartilha a dor – especialmente a da morte – me sinto acolhida. Então espero que essa carta aberta sirva de alguma forma pra outras pessoas que assim como eu sentem falta, sentem medo, sentem dor.