Uma outra voz em Chernobil

O ENCONTRO COM AS VOZES

Eu não tinha nascido na época em que o acidente na usina nuclear de Chernobil aconteceu. Quando a União Soviética se extinguiu, eu tinha 3 anos de idade. Apesar de ter estudado esses dois assuntos no colégio, só fui perceber que eu ignorava muitas coisas a respeito do tema quando estive na zona proibida em agosto de 2017.

Desde que eu voltei da visita a Chernobil não paro de pensar no acidente. Fiquei tão impactada com o que vi que passei a refletir inquietantemente sobre quem eram aquelas pessoas, quais histórias viveram, como entenderam o que aconteceu. De alguma maneira me senti responsável por espalhar o que vi e vivi naquela viagem. Em toda oportunidade, contei minha experiência para amigos próximos e parentes, porém ainda sentia que eu sabia a história de uma maneira bastante superficial. Foi quando encontrei o livro Vozes de Tchernóbil — A História Oral do Desastre Nuclear, da Svetlana Aleksiévitch, a qual não conhecia mas imediatamente me identifiquei com o seu trabalho e prontamente passei a admirá-la pela coragem de publicar um livro de relatos, e apenas isso, das muitas pessoas com crenças e comportamentos distintos as quais foram impactadas pelo acidente de diversas maneiras. Era justamente o que eu estava buscando para aprofundar e compreender o incômodo que sentia.

Chernobil é considerado o acidente nuclear mais grave da história. Foi também o primeiro, e isso é bem relevante para entender o curso que tomou. No dia 26 de abril de 1986, na cidade de Pripyat, na Ucrânia, uma série de explosões destruiu o reator da unidade 4 da usina nuclear de Chernobil e liberou na atmosfera partículas radioativas extremamente perigosas para a natureza e seres vivos. Estima-se que a radioatividade foi aproximadamente 200 vezes maior do que as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki juntas.

A EVACUAÇÃO

As explosões lançaram radionuclídeos que atingiram 70% da Bielorrússia, cuja fronteira estava a 16km de distância de Pripyat. A Ucrânia em si, teve seu território contaminado em 4,8% e a Rússia, 0,5%. Isso por conta das condições climáticas dos dias seguintes; se o vento estivesse em outra direção, a história poderia ser bem diferente. Quando ocorreu o incêndio em 1986, foi necessário evacuar aproximadamente 45 mil pessoas das áreas mais atingidas. Auto-falantes espalhados pela cidade davam os primeiros avisos: os moradores tinham duas horas para se preparar e deviam esperar em frente a seus prédios para serem retirados. Os dez primeiros dias após o acidente foram o período de maior intensidade radioativa, e apesar da extrema importância de afastar as pessoas das áreas contaminadas, os moradores de Pripyat só começaram a ser retirados 36 horas após o acidente. Durante uma semana foram evacuados 135 mil habitantes das cidades de Chernobil e Pripyat e outras 187 pequenas comunidades, criando uma zona de exclusão de 30 km da usina; porém, cerca de 5 milhões de pessoas na Ucrânia, Bielorrússia e Rússia foram expostas à precipitações nos dias seguintes ao acidente.

Quando o líder da União Soviética da época, Mikhail Gorbachev, se pronunciou publicamente pela primeira vez, 18 após o acidente, não deu uma explicação detalhada, apenas anunciou na televisão: “Boa tarde, meus camaradas. Todos vocês sabem que houve um inacreditável erro — o acidente na usina nuclear de Chernobil. Ele afetou duramente o povo soviético, e chocou a comunidade internacional. Pela primeira vez, nós confrontamos a força real da energia nuclear, fora de controle”. Alguns dizem que o Partido Comunista omitiu as reais dimensões do acidente para a população e para o mundo com a intenção de não alarmar e criar pânico, outros dizem que ninguém entendia muito bem o que estava acontecendo, achavam que era mesmo só um incêndio, acreditavam que o homem soviético poderia superar a física. A radiação era invisível, não tinha cor nem cheiro, como poderiam temer o que não se vê e o que não se conhece?

Em vários momentos do livro Vozes de Tchernóbil, moradores da região contam que não entendiam se estavam em guerra ou não. Muitos conheciam bem como era ter seu território disputado e podiam confirmar que sim, a guerra estava acontecendo de novo, mas no céu não havia aviões, não ouviam bombardeio e nem viam feridos de guerra. No entanto nas ruas havia tanques, militares e pessoas uniformizadas evacuando os habitantes das casas. Era uma guerra contra o próprio povo.

“A evacuação… Se alguém olhasse aquilo de cima, pensaria que havia eclodido a Terceira Guerra Mundial. Enquanto esvaziavam uma aldeia, a outra era advertida: evacuação dentro de uma semana! E durante toda aquela semana, os habitantes enfeixavam a palha, segavam o mato, lavraram as hortas, cortavam a lenha. Levavam a vida de sempre. As pessoas não entendiam que estava acontecendo. E depois de uma semana, eram retirados em veículos militares.” (Vladímir Matviéevitch Ivanóv, ex-primeiro secretário do Comitê Distrital do Partido de Slávgorod)

Após a evacuação, a maioria das casas foram enterradas; a madeira é um material que absorve bastante a radiação e essa era a única forma de evitar que a contaminação continuasse se espalhando na atmosfera. Algumas das casas restantes eu pude visitar, foi o primeiro lugar em que paramos. Visita-las me despertou um jeito de olhar bastante curioso. Eu caminhava com uma atenção ingenuamente infantil misturada com a desconfiança de um adulto que ouviu por mais de dez minutos a lista dos “não é permitido” em Chernobil. Nos alertavam dos cuidados diversas vezes, porém era difícil de acreditar que aquela beleza toda nos era prejudicial.

Svetlana Aleksiévitch, a autora do livro, diz algo que representou muito o meu sentimento conflitante ao descer da van pela primeira vez e adentrar na área contaminada:
“Na minha primeira visita à zona, os jardins floresciam, a relva jovem brilhava alegremente à luz do sol. Os pássaros cantavam. Um mundo tão… tão familiar. O meu primeiro pensamento foi que tudo estava no lugar, tudo era como antes. A mesma terra, a mesma água, as mesmas árvores. As formas, as cores e os aromas eram eternos e ninguém seria capaz de modificá-los. Mas já no primeiro dia me explicaram que não se deve arrancar flores, que é melhor não se sentar na terra e tampouco beber a água dos mananciais.”

RASTROS DE RESISTÊNCIA

O caminho estreito de terra, guiava o nosso olhar para encontrar de um lado e de outro casas camufladas pela natureza. Logo que desci notei o silêncio intenso. Me questionava o tempo todo se eu devia estar ali e o que devia sentir. Era aflição? Lamento? Curiosidade? Quem foram aquelas pessoas? Me sentia testemunha de um crime, e de fato eu era, porém com 30 anos de atraso. As casas tinham suas portas escancaradas, quando as tinham; as paredes cobertas de limo; galhos e folhas invadiam janela adentro. Muita poeira. Eu tinha um receio tão grande de encostar em alguma coisa que cruzava meus braços com força para evitar esquecer que eu poderia os soltar. O meu equilíbrio estava comprometido e caminhar no chão de madeira podre me deixava com vertigem. Acreditava que a qualquer momento eu iria cair de joelhos, humilhada no chão radioativo e ficar contaminada para sempre, era questão de tempo. Eu estava ali por vontade própria e me sentia totalmente vulnerável por isso. Onde fui parar? A insegurança de Chernobil me atingia pela primeira vez.

Fiquei constrangida de fotografar o interior das casas, sentia que eu invadia a privacidade de alguém o qual não teve tempo de se despedir do lar. A parte interior tinha rastros de resistência. Móveis deteriorados caídos pelo meio do caminho e papéis espalhados pelo chão todo me faziam imaginar militares retirando a força famílias que faziam de tudo para impedi-los. Para mim é o que justificava aquela bagunça, mas não era a verdade. Mais tarde descobri que as pessoas evacuaram de forma amistosa e que o caos daquelas casas foi por conta dos intrusos os quais, muitos anos depois, apesar do controle policial, se infiltraram na zona proibida e saquearam materiais contaminados que ficaram para trás, de televisão à assentos de banheiro.

Interior de uma das casas da região evacuada

Os moradores de 1986 saíram de suas casas de forma pacífica, porém obviamente nem todos queriam sair, muitos não acreditavam que a terra deles estava envenenada enquanto a colheita acontecia e os jardins floresciam naturalmente. No entanto achei interessante algumas pessoas relatarem, em Vozes de Tchernóbil, que perceberam a falta de insetos, abelhas e aves no geral nos primeiros dias após o acidente. O ser humano não detecta este tipo de perigo, mas os animais sim. Nos distanciamos tanto da natureza a esse ponto ou é algo que não está ao nosso alcance mesmo? Em uma outra fala, a pessoa conta que cavava a terra durante seu trabalho agrícola e as minhocas não apareciam, elas tinham ido mais fundo do que era o usual, estavam se protegendo. E os humanos esperando ordens superiores para tomar alguma atitude.

 

A IDENTIFICAÇÃO COM A TERRA

Eu estava cada vez mais confusa em relação ao que de fato tinha acontecido nos dias seguintes ao acidente. Imaginei filas de pessoas esvaziando as filas de ônibus na praça central. As ordens que foram dadas eram: evacuar imediatamente, não poderiam levar nenhum pertence pessoal, voltariam em três dias com tudo já resolvido. Não foi o que aconteceu. Não havia ônibus para todos, era estritamente proibido levar animais e alguns foram mesmo só com a roupa do corpo. Lendo o livro soube que a evacuação total demorou demais para acontecer. Muitos não aceitaram ser obrigados a deixar sua terra e voltaram clandestinamente para zona de exclusão assim que puderam. Sentiam saudade do tempo anterior ao acidente, quando havia canções e danças, porém ao retornarem, se depararam com o silêncio e a sensação de prisão. Por ser um território abandonado e sem autorização para moradia, não tinham energia elétrica, saneamento básico e acesso a comunicação; ainda assim, se mantiveram ali, não acreditavam na terra maldita. Eles estavam isolados, mas em casa, na motherland, com os seus animais e com a vida agrária. Não se sentiam necessários em nenhum outro lugar.

Os soviéticos tinham uma relação intrínseca com a terra que eu jamais terei. São outros tempos e outras culturas, eu sei. No entanto me deparo pensando se o desapego com a minha casa, meus pertences e meu país não são demasiados. Ao longo dos meus 29 anos já mudei de casa umas sete vezes e cada vez tenho menos problema com isso. Levo menos coisa comigo, não me importo com o que ficou para trás, não tenho essa identificação extrema com a nação como tiveram os soviéticos. Eu deveria ser mais patriota? Deveria amar o Brasil independente de qualquer coisa? É difícil falar sobre isso nos dias atuais e talvez também tenha sido difícil para eles quando viram se extinguir a União Soviética alguns anos depois do acidente. Nossos povos são muito diferentes, mas se colocar uma lupa na vida de cada um, vamos ver que somos todos meio parecidos em aspectos diversas vezes inimagináveis.

FLORESTA VERMELHA

Passamos por dentro da Floresta Vermelha. Eu não sabia a origem desse nome, nem suas características, menos ainda sua história, porém fiquei hipnotizada com a sua beleza. Antes do acidente, as florestas tiveram uma importância significativa durante a Segunda Guerra Mundial; elas foram utilizadas pelos partisans, uma tropa irregular de resistência formada por civis que se opuseram à dominação alemã após o controle estrangeiro de uma determinada área. Eles sabotavam, atrapalhavam a comunicação, roubavam cargas e impediam a todo o custo que o exército inimigo conseguisse executar os planos de ocupação de novos territórios. Os partisans utilizaram a floresta para se infiltrar atrás das linhas inimigas. Porém essas florestas não carregam mais essa história, depois do acidente, por conta da radiação, os pinheiros de uma área extensa adquiriram a cor vermelho-enferrujado e morreram. Por ter se tornado uma das áreas mais contaminadas do mundo, todas as árvores no raio de 10 km da usina nuclear tiveram o mesmo fim das casas: foram demolidas e enterradas. Novas mudas foram plantadas e hoje há uma floresta de encher os olhos, inclusive com uma vida selvagem que se adaptou às mudanças e segue sobrevivendo.

MORTE

Hotel no centro de Pripyat

 

Caminhando na praça central, vi onde ficavam os prédios do governo, cinema, hotel e até um supermercado ainda relativamente conservado com prateleiras, carrinhos e placa de identificação dos corredores. Tive um sentimento intenso de morte naquela região, depois acalmei meu coração pensando que essas pessoas ainda estão vivas e contam suas histórias, apenas deixaram tudo para trás. Pensar dessa forma foi uma solução ingênua que me permitiu seguir o tour.

Vozes de Tchernóbil fala bastante sobre a morte. Não há um número certo de pessoas que morreram em decorrência do acidente. Além do governo ter omitido diversos dados, algumas mortes tiveram sintomas semelhantes a outras circunstâncias. Como foi o caso da infecção generalizada, que também poderia ser relacionada a baixa quantidade de células de defesa do corpo, algo comum quando há significativa exposição ao césio-137, um dos elementos químicos liberados pela nuvem de radioatividade trazido pela explosão. Alguns dados tornam impossível não fazer relação direta com o acidente. Antes de Chernobil havia 82 casos de doenças oncológicas para cada 100 mil habitantes, no início dos anos 2000 o aumento foi de 74 vezes, 6 mil doentes para os mesmos 100 mil. Por conta das doses diárias de radiação, também cresce a cada ano o número de deficientes mentais, de pessoas com disfunções neuropsicológicas e com mutações genéticas. Além da mortalidade nos últimos 10 anos ter crescido em 23,5% nas regiões mais contaminadas, a cada dez pessoas sete estão doentes, segundo inspeções médicas.

Quando estava visitando a área, achei que haviam tido poucas mortes, que tiveram mais sorte que juízo, já que evacuaram a cidade. Todavia conforme fui lendo os relatos vi que não só diversas pessoas adoeceram gravemente e morreram ao longo dos meses, como se instaurou uma aura mortal nas pessoas daquela região. Os liquidadores foram o grupo mais afetado, mais de 600 mil homens entre voluntários e militares com idade média de 33 anos, trabalharam nos sete meses seguintes para minimizar os danos da radiação, seja apagando o incêndio, construindo a nova cobertura para a usina que explodiu, limpando a radiação das áreas afetadas, fazendo a evacuação dos moradores ou enterrando os vestígios contaminados. Os 134 trabalhadores que estiveram na usina no momento da explosão sofreram a chamada síndrome aguda da radiação, deles 28 morreram imediatamente e outros 30 ao longo dos anos. Tenho certeza que não foram os únicos.

A RADIAÇÃO NÃO MATOU A ESPERANÇA

Svetlana Aleksiévitch traz demasiados relatos de mulheres que também se expuseram à radiação. Elas foram as enfermeiras que seus maridos não puderam ter. Um relato comovente logo no começo do livro conta a história de uma esposa que acompanhou seu companheiro ser levado às pressas para Moscou após participar da operação de cessar o incêndio. O governo dizia que o marido não pertencia mais a ela, ele agora era da ciência e do Estado. Ela estava grávida e guardou esse segredo para si pois de outra forma jamais poderia ficar perto do marido acompanhando o tratamento no hospital. A barriga cresceu e ela estava tão determinada em continuar próxima do companheiro que quando ninguém mais tinha coragem de se arriscar, nem os médicos e nem as enfermeiras, deixaram que ela cuidasse dele mesmo grávida. O relato é emocionante e bastante corajoso por sua honestidade. O marido não resistiu e faleceu antes da criança nascer. Sim, a criança nasceu, porém viveu por 4 horas, morreu de cirrose. Absorveu a radiação do pai protegendo a mãe de ter o mesmo fim.

Sete anos após o acidente, as mulheres da Bielorrússia fizeram mais de 200 mil abortos tendo Chernobil como a primeira causa. As crianças nascidas na região contaminada durante aquela época tiveram maior propensão a desenvolverem problemas de saúde do que adultos acima dos 50 anos que estiveram lá quando aconteceu o acidente. As crianças desse tempo passaram toda a sua vida no hospital, seus amigos já morreram e agora esperam a sua vez. Não são livres para brincar na areia, não podem entrar na água e precisam cuidar o tempo todo para que não se cortem ou não se machuquem. Elas não têm energia, fôlego, tampouco disposição para serem crianças. Aguardam a morte.

As estatísticas também não são otimistas para as crianças dessa região. Depois de cinco anos, o câncer de tireoide aumentou 30 vezes entre os pequenos, além do crescimento das lesões congênitas de desenvolvimento, diabete infantil, doenças renais e do coração. As gerações seguintes também apresentaram uma grande incidência de anomalias genéticas, prejudicando cada vez mais a continuidade daquelas famílias.

Em diversos relatos do livro, as pessoas que estavam nas regiões afetadas durante o período da contaminação, contam que deixaram de ser vistas como seres humanos normais e passaram a ser rotuladas como “pessoas de Chernobil”, e assim eram excluídas; ninguém chegava perto, tampouco encostavam ou dividiam seus pertences. Recebiam constantemente olhares desconfiados e não aceitavam nada que viesse deles. Estavam sempre à margem e é principalmente por este motivo que muitos deles optaram por continuar vivendo nas regiões próximas do acidente, pois ali podem viver sem tanto desprezo. A terra contaminada e o ar radioativo já não eram mais o maior dos problemas, eles queriam se sentir livres, aceitos e confortáveis próximos de outras pessoas que viveram, sofreram e foram rotulados da mesma forma. Guenádi Gruchevói, deputado do Parlamento bielorrusso, encontrou uma saída para ajudar efetivamente. Criou a Fundação para as Crianças de Chernobil a qual arrecada doações do mundo todo e encaminha para as crianças dessa região. Ele conta em um dos relatos que levava lotes de alimentos e sucos mesmo sabendo não ser o suficiente para salvar as crianças, no entanto foi o bastante para fazer um homem chorar ao receber as doações, ficou emocionado por saber que não haviam sido esquecidos. Ainda havia esperança.

JARDIM DE INFÂNCIA

Em Kopachi, um vilarejo pertencente à zona de exclusão, quase todas as casas foram derrubadas e enterradas, com exceção de uma ou outra construção, entre elas um jardim de infância. Visitamos a parte interna e foi absolutamente perturbador. Novamente me senti constrangida em ser testemunha daquele lugar. A morte estava em todos os centímetros da casa, apesar de saber que, provavelmente, ninguém tenha de fato morrido ali, mas o abandono explícito relembrava o tempo todo o futuro interrompido que muitas crianças tiveram. Logo na entrada me deparei com uma boneca despedaçada, sem os braços e uma das pernas, com a cabeça num tom mais verde que o resto do corpo e um buraco na barriga de plástico — uma metáfora assustadora. Além das dezenas de camas, beliches e berços, encontrei também mesas e cadeiras pequenas, livros, calçados, brinquedos, papéis revirados no chão podre, parede descascada e teto mofado. Uma luz natural entrava pela janela e me levava a olhar a vista do lado de fora: o verde intenso das folhas e árvores poderia ser um jardim perfeito para essas crianças invisíveis brincarem livremente. Uma natureza poética fantasiosa mais uma vez serviu de válvula de escape para que eu não desabasse diante da desesperança que me assolava.

Jardim de infância em Kopachi

 

LIQUIDADORES

Quem teve o trabalho árduo de cuidar do que sobrou das cidades evacuadas foram os liquidadores. Muitos deles quando se viram diante do acontecimento, quiseram fazer parte da história; se voluntariaram ou foram escolhidos pelo governo para limparem as casas. Ganharam salários maiores, alguns receberam promessas de moradia, prêmios e outros benefícios que raramente eram cumpridos. Eram expostos diariamente a índices altíssimos de radiação contudo tinham um controle pouco confiável. Em certas situações a medição era feita apenas em alguns liquidadores e o resultado replicado aos demais mesmo sabendo que cada um havia se arriscado mais que outros, inclusive vários deles iam para áreas contaminadas ou esfregavam seus dosímetros em materiais radioativos para apresentar aos seus superiores resultados alarmantes na esperança de serem afastados com antecedência do serviço. Também era comum os relatórios oficiais terem o número real de exposição omitido, não era bem visto revelar o risco que os liquidadores estavam correndo.

Trabalhavam todos os dias sem direito a folga, o equipamento de segurança era precário, alguns recebiam poucas peças de roupa e máscara, essa que por ser excessivamente pesada e quente inviabilizava o trabalho e era raramente usada. Recebiam garrafas de vodca do governo e usavam como moeda de troca entre eles e os moradores. A cada três meses voltavam para a casa por alguns dias com o único objetivo de comprarem mais destilado. Bebiam aos montes, segundo as ordens superiores, era uma boa forma de proteger o organismo contra a radiação, mas para um dos liquidadores que dá o seu relato no livro, só era possível dar conta de todo o horror, sob o efeito do álcool.

ALIMENTOS SEM RÓTULOS

As aldeias que ainda não tinham sido evacuadas, passaram a ter acesso a produtos vindos de fora pois estavam próprio ao consumo. Os alimentos colhidos e produzidos na região como o leite da vaca, frutas silvestres, cogumelos e carnes estavam contaminados com césio-134, césio-137 e estrôncio-90. Um depoimento conta que o leite da fábrica Rogatchóv já não era mais leite, e sim resíduos radioativos, porém isso não impedia a produção. Quando as pessoas viam o rótulo da fábrica, deixavam de comprar e aos poucos os leites começaram a aparecer sem rótulos. O mesmo aconteceu com a carne, costumavam vender mais caro as que vinham de fora. Como as carnes contaminadas deixaram de ser compradas e consumidas, os mercados passaram a misturar essa com carne limpa, no entanto mantinham o preço elevado para não perder a venda nem o produto. Além disso, diversos alimentos enviados para suprir as necessidades das aldeias que estavam isoladas, eram frequentemente desviados e não chegavam integralmente aos destinatários que mais necessitavam.

SISTEMA SOCIALISTA

O que leva o ser humano ser tão egoísta? Estamos exaustos de repetir que não está fácil para ninguém. Não há tempo para se perder, é preciso pensar primeiro em si e depois no outro. Porém este pensamento não é algo que eu associava às práticas comunistas. Depois de ler os relatos, vi como o modelo socialista soviético pode ser tão podre quanto o modelo capitalista norte-americano ou até mesmo o brasileiro, para não dizer que não falei das flores. Os homens daquele tempo são os primeiros a criticar a postura do governo diante do acidente, o fazem com propriedade já que fizeram parte daquele tempo e hoje têm um distanciamento maior do que foi o socialismo nos anos 80. Os relatos expõem com sinceridade vários comportamentos egoístas que os soviéticos tiveram. Pode ser que isso estava adormecido e floresceu diante da situação extrema que foi o acidente, porém acredito que o egoísmo seja uma característica comum a todos os seres humanos. Os relatos falam inclusive sobre a hierarquia socialista. As pessoas do partido não se preocupavam com a saúde dos outros e sim com os planos soviéticos. Aguardavam a ordem de um líder antes de qualquer coisa. Deveriam obedecê-los e agradá-los com o interesse de no futuro serem beneficiados por isso. “Era a pátria do poder, e não a pátria do povo.”, disse Vassíli Boríssovitch Nesterénko, ex-diretor do Instituto de Energia Nuclear da Academia de Ciências da Belarus. Comenta também, assim como outras pessoas, que o Estado era prioridade e que ignorava as leis da física. O homem soviético era visto como o grande poderoso resolvedor de todas as questões. Na época do acidente Vassíli era um dos físicos mais especializados em energia nuclear da União Soviética e estava bem próximo dos superiores que decidiam sobre as ações a serem tomadas. Ele conta que tinha sim solução para evitar o agravamento da contaminação pelo ar, pela natureza e alimentos. Uma das ações emergenciais seria distribuir solução de iodo para toda a população que estivesse na região. O iodo é fundamental para proteger a glândula tireóide da radiação, mas só foi distribuído pelo governo soviético um mês depois do acidente. Apesar dele ter informado os procedimentos diversas vezes, era boicotado constantemente, mandavam-no parar de ter “ideias”, de instaurar o pânico. Ao mesmo tempo que as autoridades se protegiam tomando iodo e levando seus filhos para longe, a população bielorrussa continuava na ignorância, sem orientações e cuidados médicos. Vassíli disse ter sido ameaçado e perseguido de formas diversas por bastante tempo. Para ele as autoridades eram uma combinação letal de ignorância e corporativismo.

Uma professora rural expõe um contraponto interessante. Ela diz que os próprios moradores não queriam saber a verdade, era mais fácil não enxergar o problema, colocar a culpa no Gorbatchóv, acusar os comunistas em vez de assumir que ter se submetido e aguardado cegamente também fez parte do problema. Outros relatos contam que o povo soviético não era estimulado a pensar criticamente, a refletir ou questionar as decisões do governo. Não acreditavam na mídia em geral, principalmente na estrangeira. Cresceram confiando apenas no governo, que infelizmente, não demonstrou real interesse no seu próprio povo.

Prédio com símbolo comunista

 

OS INIMIGOS SÃO OS HOMENS

Após o acidente a maior prova da tragédia são as próprias pessoas. Muitas não estão mais vivas, algumas eternizaram a tempo seus depoimentos no livro que Svetlana Aleksiévitch publicou, outros preferiram esquecer a todo o custo. Os cientistas do mundo todo se apossaram dessas testemunhas, fizeram delas laboratório e casos de estudos com o intuito de cuidarem e protegerem o futuro dos próprios seres humanos. Por bastante tempo, e acredito que até hoje, os maiores afetados veem os cientistas como os grandes responsáveis pelo acidente. Vários residentes das áreas contaminadas desacreditaram na importância da ciência. O fotógrafo Víktor Latun expõe muito bem quando diz que os cientistas que antes ocupavam o trono dos deuses, haviam se convertido em anjos caídos, em demônios, e que a natureza humana segue sendo tal qual no passado, um mistério.

Os elementos químicos radioativos em si não são os grandes inimigos, já sabemos que são onipresentes. Elas estão no ar, no chão, na água, em todos os ambientes; desde o momento que somos concebidos até a nossa morte. Somos expostos à radiação durante exames médicos, viagens de avião, microondas, durante o uso do celular e até em alimentos como a castanha do Pará, banana, cenoura e batata. Hoje é possível visitar Chernobil sem grandes riscos de contaminação, basta seguir as orientações. Durante o tour, que durou em torno de 8 horas, recebemos uma radiação equivalente a uma hora e meia de vôo, ou seja, ter viajado até a Ucrânia me deixou mais exposta do que de fato a visita à zona de exclusão. Ao fim do tour, passamos por uma máquina que detecta se você está “limpo”, e estávamos todos bem.

Não é com a radiação que devemos nos preocupar. O inimigo são os homens. No entanto é importante lembrar que não é só um modelo de homem que nos ameaça. Dentro de cada um mora um inimigo em potencial. A doutora em ciências agrícolas, Slava Konstantínovna Firsakova, diz sabiamente “Por um lado, a nossa civilização é antibiológica, o homem é o maior inimigo da natureza, e por outro, é um criador. Transforma o mundo. Cria, por exemplo, a torrei Eiffel e as naves espaciais. Só que o progresso exige vítimas, e quanto mais longe for, mais vítimas serão”. Por conta do acidente, a cidade de Pripyat e seus arredores não poderão ser povoados pelos próximos séculos. Os cientistas supõem que os elementos radioativos mais perigosos necessitarão de 900 anos para atingir níveis que permitam ser habitados novamente. Isso sendo otimista, já que 900 anos é futuro o suficiente para não saber quantos outros desastres como este acontecerão.

Hoje, mais de trinta anos depois, mais de cinco milhões de pessoas ainda vivem em áreas contaminadas. Só na Bielorrússia, são 2,1 milhões de pessoas nas quais 700 mil são crianças — uma em cada cinco pessoas vivem em território contaminado. Na época, a Bielorrússia tinha uma população de 10 milhões de habitantes, era um país agrário com predomínio de populações rurais, depois de Chernobil o país perdeu 485 aldeias, 70 delas estão sepultadas sob a terra para sempre. Em termos de comparação, durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas destruíram 619 aldeias do país. Não há dúvidas quanto ao horror que foi esse acontecimento. O fio de esperança em relação ao futuro da humanidade é frágil.

ANIMAIS OFENDIDOS

Preciso falar dos animais. Se a situação dos moradores das áreas contaminadas já era tratada com descaso pelos líderes da época, com os bichos não era muito diferente, inclusive era pior. Tive contato pela primeira vez com os animais ainda no início da viagem. Deitadinho no chão, ao lado da placa de Chernobil, tinha um cachorro desses bem vira-lata. Todos o olhavam com receio e ninguém o encostava, porém todos o fotografavam, inclusive eu. Voltamos para van e me distraí de todas as informações dadas pela guia, eu não parava de pensar no cachorro, no porquê de eu não ter encostado nele, e o quão acostumado ele deveria estar com esse tipo de rejeição. Em um segundo ponto, encontrei outros três cachorros, dessa vez não hesitei em perguntar para a guia se poderíamos encostar nos animais e ela respondeu “why not?”. Me abaixei e abri os braços, eles vieram sem medo e eu me entreguei. Tinham o olhar triste igual a todos os cachorros abandonados que vivem na rua, partiu meu coração. Recebi lambidas, fiz carinho e outras pessoas se aproximam fazendo o mesmo. Ao voltar para a van tive vontade de lavar as mãos e, novamente, me questionei se fui longe demais. Mais tarde tive um encontro sublime que me fez abrir mão de vez de qualquer barreira com os animais da zona contaminada. Levei na mão um punhado de castanhas e com respeito ofereci a uma raposa que nos olhava atenta, comeu carinhosamente na minha mão. Um dos momentos mais importantes dessa viagem para falar a verdade.

Raposa em frente ao letreiro da cidade de Pripyat

 

Outro momento que redirecionou meu foco para a vida ao invés da morte, foi quando visitamos o Duga-1, uma imensa antena de radar que servia como escudo detector de possíveis mísseis vindo dos EUA na época da guerra fria. Nos anos 80 a área secreta, que armazenava a estrutura grandiosa, tinha como fachada um acampamento de verão para crianças. Mas não foi a construção que mexeu comigo, e sim um outro cachorro que nos acompanhou durante o trajeto todo. Era o mais alegre entre todos os que tínhamos visto até então, parecia filhote já com porte adulto, cheio de energia e adorava pular nas nossas pernas. Deixei todas as vezes, me abaixei e brinquei com ele sempre que pude e mal prestava atenção nas histórias sobre a disputa do governo soviético com os Estados Unidos. Eu estava hipnotizada pela sagacidade de um cachorro livre na sua própria terra. Aquele lugar era dele, conhecia todo o trajeto, ia na frente liderando o grupo, ficava para trás acompanhando o último da fila, mordia o graveto, se entretinha com os insetos minúsculos e corria atrás de borboletas. Definitivamente esqueci da tragédia. Como ficar abatida com as consequências do acidente quando diante de mim há uma vida nova descobrindo tudo, sem pudor, sem medo?

Radar soviético Duga-1

Cachorro que nos acompanhou no trajeto ao radar Duga-1

 

Meses depois, lendo Vozes de Tchernóbil, revisito minhas memórias ainda muito recentes e dou um novo significado a elas. Não posso seguir ingênua. Os relatos mais tristes que li no livro foram sobre os animais daquela região. Animais domésticos não puderam seguir seus donos durante a evacuação, corriam atrás dos ônibus lotados como se fosse uma brincadeira. O pêlo dos bichanos absorvia bastante radiação e era extremamente perigoso levar para fora da zona de exclusão. Tiveram que ficar para trás. Os donos não tiveram escolha mas também acreditavam que voltariam logo. Mais tarde quando os liquidadores chegaram, os cães que ficaram nas casas, ao ouvir a voz humana, se aproximaram entusiasmados, porém foram traídos sendo alvejados. Essa era a ordem e naquele tempo aquele povo não questionava. A infra-estrutura era escassa e assim como não tinha ônibus para retirar todos os moradores, também não tinha bala para matar todos os animais e infelizmente inúmeros cães foram enterrados vivos. Eu chorei no ônibus quando li estes relatos pela primeira vez, chorei quando contei pro meu namorado e chorei quando falei disso na análise. Escrevo e toda vez que releio, sinto novamente um pedaço de mim se desfazendo. Revisito minhas memórias, é preciso reconstruí-las.

A relação do homem com o animal é colocada em cheque o tempo todo no livro e assim como na história da humanidade. Kant já dizia que podemos julgar o coração de um homem pela forma como ele trata os animais. Os moradores da área contaminada, especificamente os que viviam nas aldeias, tinham uma proximidade genuína com os bichos. Em Vozes de Tchernóbil, Anatóli Chimánski conta ter viajado à aldeia depois de um ano do acidente e encontrou seu cachorro Rex, que não se aproximou quando ela o chamou. Já tinha se tornado selvagem. “Será que não me reconheceu? Ou não quer me reconhecer? Talvez esteja ofendido”, ela diz. Anatóli foi capaz de expressar com mais propriedade a relação que o animal passa a ter com a natureza quando longe da domesticação do homem: “Apareceram os primeiros cachorros-lobos nascidos de lobas e cachorros fugidos para o bosque. São maiores que os lobos, não param diante das sinalizações, não temem a luz nem o homem, não respondem à vaba (grito dos caçadores que imita a chamada dos lobos). E também os gatos selvagens se reúnem em grupos e já não têm medo do homem. A memória da obediência ao homem desapareceu. A fronteira entre o real e o irreal está se apagando…”.

Penso bastante sobre quem foram os responsáveis por esse descaso com os animais. Foram os grandes líderes que deram as ordens? Os liquidadores que as executaram? Os tutores que não desconfiaram? Hoje os animais que vivem na zona de exclusão têm taxa de mortalidade mais elevada, mais mutações genéticas e menor taxa de natalidade. Porém é interessante notar que com a ausência do homem os animais selvagens voltaram a habitar a área e hoje é possível encontrar javalis, alces, lobos, além de espécies quase extintas como as corujas gigantes, cavalo-de-Przewalski e bisontes europeus.

PRIPYAT, CIDADE CENÁRIO

Antes de ser território de animais selvagens e do desastre com a usina nuclear, Pripyat estava sendo planejada e construída pela União Soviética como modelo de cidade socialista. Quando houve o acidente ela existia há somente 16 anos. Cinco dias após o desastre, em primeiro de maio de 1986, as pessoas das regiões próximas foram incentivadas pelo governo a irem às ruas com suas famílias celebrar o feriado do dia do trabalhador, uma data muito importante para os soviéticos. Ainda estava dentro do período de maior contaminação, contudo queriam provar que não havia nada de errado, que estava tudo sob controle e não havia motivo algum para se preocupar. Em Pripyat, nessa mesma data, seriam inauguradas uma nova área de lazer para os moradores. Tudo já estava pronto, apenas aguardando a grande festa. Roda gigante, carrinho de choque, carrossel e balanços estavam entre as novas atrações da cidade e se juntariam aos outros espaços já bem frequentados entre as famílias. Clube com piscinas, teatro, quadras de basquete e futebol eram todos utilizados entre os habitantes de Pripyat, mas hoje é só cenário enferrujado de uma cidade fantasma tomada pelo limo, fungos e pela vegetação natural, digno de inspiração para jogos de videogame pós-apocalípticos, e de fotografias de turistas que, assim como eu, buscam ver alguma poesia nessa cidade interrompida.

Parte da área de lazer que seria inaugurada em Pripyat

Clube de Pripyat

 

O operador de câmera cinematográfica, Serguei Gúrin, esteve em Chernobil registrando cenas da evacuação. No livro ele relata o momento que filmou pessoas em campos de concentração. Fala sobre o quão antinatural é reunir e recordar a guerra, lembrar de como matavam e eram mortos. “Pessoas que sofreram juntas a humilhação ou que conheceram até onde pode chegar um homem naquelas circunstâncias; no fundo do seu subconsciente, serão seres que fogem uns dos outros. Fogem de si mesmos. Fogem daquilo que descobriram ali sobre o homem. Daquilo que veio à tona do seu interior, de debaixo da pele. Por isso… por isso fogem.”, ele diz.

OLHAR E FALAR SOBRE O OUTRO

Isso me faz voltar a um ponto chave que me perseguiu durante toda a viagem à Chernobil: qual é a importância de se estar ali? Quando a guia do tour explicou que visita não é área aberta ao turismo, fiquei surpresa. Tivemos um processo relativamente burocrático para a entrada. Foram dois checkpoints para apresentar nossos passaportes que já tinham sido previamente analisados. O controle é rigoroso e não abrem exceção a ninguém. Para entrar lá todos são apresentados como um misto de jornalista, cientista e pesquisador. E isso fez muito mais sentido para mim. Seria irresponsável da minha parte entrar com olhos de turista e ir embora da mesma forma.

Senti que foi tão importante ter visitado a área atingida que me culpei por não ter conhecido os detalhes dessa tragédia antes. Achei que, de alguma forma, eu deveria contar para as pessoas sobre a poesia que vi em uma natureza forte que prospera em uma terra radioativa. No entanto depois de ler Vozes de Tchernóbil e de me aprofundar no assunto, me dei conta da importância de falar também sobre a vida das pessoas afetadas pelo acidente. Estou falando o suficiente?

Svetlana Aleksiévitch traz relatos de homens e mulheres do seu tempo, falam com segurança pois viveram na época em que tudo aconteceu. A autora bielorrussa, filha de pai bielorrusso e mãe ucraniana, expõe sua voz no livro em apenas dois momentos: um logo no começo, onde conta como foi recolher os depoimentos e se manter no lugar de ouvinte, algo comumente não esperado aos escritores. Mais tarde ela aparece no posfácio, no discurso falado quando ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2015, expondo parte do seu diário na época. No restante do livro ela abre espaço para que outras vozes sejam ouvidas.

Mas e eu, quem sou eu? Por que minha opinião é importante ou por qual motivo deveriam me ler? Na verdade não me acho importante e tenho certeza que têm outros textos mais interessantes e mais bem escritos que o meu. Faço por um motivo extremamente egoísta (também sou egoísta), uma vontade de colocar no papel a angústia e o caos que minhas ideias e visão de mundo passaram a viver depois dessa experiência. Não tenho um papel relevante na sociedade, não tenho textos, resenhas, reflexões publicadas sobre quase nada, mas, por hábito, sempre tive uma proximidade acolhedora com a leitura e sobretudo com a escrita. Escrevo para que eu me compreenda, falo do outro para que eu enxergue meus problemas, penso nas desgraças e nas incoerências do ser humano para que eu dê valor e aceite minhas contradições constantes. Porém este texto, apesar de me revelar muitas coisas, não é sobre mim, não deve ser sobre mim.

Essa reflexão que faço com tanta propriedade foi desconstruída e questionada em alguns segundos logo após eu ter relido em Vozes de Tchernóbil uma das citações mais importantes para mim.

“Todos estão depressivos. O sentimento é o de estarem irremediavelmente condenados. Para uns, Tchernóbil é uma metáfora, um símbolo. Para nós, é a nossa vida. Simplesmente a vida. Às vezes penso que seria melhor que vocês não escrevessem sobre nós. Que não nos observassem de fora. Que não fizessem diagnósticos: radiofobia, ou seja lá o que for; que não nos destacassem dos demais. Assim, teriam menos medo de nós.” (Nadiéjda Afanássievna Burakova, habitante do povoado urbano Jóiniki).

Um dos motivos que sempre me faz desistir de publicar o que escrevo é eu me sentir incapaz de dominar um assunto o suficiente para expor alguma opinião concreta e relevante. Absorvo informações e posições bem mais que construo as minhas próprias. Mudo de ideia o tempo todo. Lendo os relatos no livro eu aceitava como verdade a voz de todos que se expunham, mesmo quando eles iam contra os meus princípios e valores pessoais e minhas visões de mundo. O fato é que a única pauta que me sinto confortável em discutir e me aprofundar, mesmo sem embasamento teórico, é o da minha vivência, o campo subjetivo, das emoções, das incompreensões, das angústias e da existência. Insisto em escrever para compreender tudo isso. Assim como várias vezes me identifiquei com o texto de outros, é possível que alguém que tenha chegado até aqui de alguma forma também se identifique; acredito ser uma boa maneira de se sentir menos sozinha no mundo. Aceito o desafio de me expor como mulher do meu tempo, deixo minha voz se expressar a partir do meu lugar de fala, uma brasileira de 29 anos que, alheia ao acidente, visitou a zona proibida e se deixou envolver pelos relatos honestos de pessoas que tiveram o rumo de suas vidas redirecionados drasticamente.

A LINHA TÊNUE

Para me sentir segura para falar sobre tudo isso me aprofundei na pesquisa como há bastante tempo não fazia, assisti documentários, li reportagens, entrevistas e revisitei o livro o tempo todo; no entanto senti várias vezes que eu andava em círculos, as informações pareciam ser redundantes, as imagens sempre as mesmas e os vídeos todos reutilizados. Mais uma vez o modelo soviético de liberdade de imprensa se mostrou inexistente. Na época do acidente poucas pessoas puderam registrar o que estava acontecendo, o desastre não teve suas entranhas escancaradas, as autoridades fizeram o possível para preservar a imagem de superpotência. Serguei Vassílievitch Sóboliev, diretor da Associação Republicana “Escudo para Tchernóbil”, conta que não deixavam filmar nada, as poucas pessoas que conseguiam, os órgãos competentes retiravam o material devolvendo as fitas com o conteúdo apagado. “Era proibido filmar a tragédia, só se podia filmar o heroísmo!”. Há alguns registros da vida em Pripyat antes do acidente, pessoas usando o clube, frequentando a cidade com suas famílias, crianças brincando livremente, quase um vídeo de propaganda soviética, e provavelmente era mesmo, porém depois de um lapso temporal, toda a área já estava destruída, devastada e abandonada.

Volto minha memória para o último momento que estive dentro da zona de exclusão. Caminhei floresta adentro, me deixei contaminar pela área radioativa, pelos relatos das pessoas afetadas e trouxe a metáfora do excluído para o meu próprio ser. Este conhecimento não tem mais volta, no entanto não pertenço a realidade de Chernobil. Minha história é diferente, minhas raízes estão plantadas em outro lugar. Encerrei minha jornada afastando meus pés dessa experiência e subindo em um dos prédios residenciais do centro de Pripyat. Ficamos livres para entrar nos oito andares de apartamentos. Vimos as opções de papéis de parede escolhidos por cada morador, imaginamos os fogões recém comprados que agora se encontram enferrujados no meio do caminho, comparamos a opção de decoração do hall de entrada dos apartamentos, alguns preferiram estantes, outros, pequenos móveis. Não havia objetos pessoais mas posso imaginar os calçados que ficaram, as roupas e os brinquedos das crianças, os quadros na parede, televisões, livros, louças e caixas de recordações. Cada moradia uma história vivida; cada morador, um relato diferente.

Uma escada íngreme e estreita nos levava ao terraço. O acesso era por um buraco com cara de janela, era impossível subir sem se apoiar na escada e nas paredes, do outro lado havia uma poça enorme, não tinha como escapar sem se molhar. Alguns desistiram ali mesmo. Encerro minha jornada, passo por esse obstáculo para novamente ver a história do ponto de vista que me pertence. Sou mulher do meu tempo. Vejo a usina nuclear com a nova proteção que durará pelos próximos 100 anos, vejo a roda gigante ultrapassar a altura dos pinheiros que ainda crescem lentamente almejando alcançar a altura das árvores que ali estiveram antes destas. Não vejo os animais — a floresta é tão robusta que é impossível vê-los a esta altura — mas sei que estão ali, sei que resistem e se adaptam como nós fazemos o tempo todo, em outras circunstâncias, por outros motivos. Vejo dezenas de prédios idênticos e simetricamente alinhados à linha do horizonte formando uma linha tênue entre as vidas deixadas para trás e a incerteza que habita no futuro.

Acesso ao terraço de um dos prédios residenciais de Pripyat

Vista do terraço

 

Estar tão envolvido em algo é como caminhar floresta adentro, sem trilha, sem sinalização. É imergir no âmago de sua própria essência e se dar conta da pequenez que é em relação à natureza, ao universo. A crença de que o ser humano é maior que todas as coisas se desfaz enquanto você se camufla com a própria vida selvagem que habita nas florestas. Os moradores clandestinos da zona proibida não ambicionam a grandeza do homem, querem viver em harmonia com a terra, são como os animais que se tornaram selvagens após o homem os abandonar. Resistem e se reinventam, são sobreviventes.

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A cicatriz

Faziam duas semanas que a minha vizinha tinha me dado de presente um skate, no meu aniversário de 10 anos. Empolgada com o novo brinquedo, eu sempre ia pra pista perto da minha casa treinar as manobras. O Arthur ia comigo, mas ele sabia tanto quanto eu: ou seja, nada. A gente aprendia junto e alternava o skate: às vezes eu, às vezes ele. Quando ele caía e se machucava, eu dizia que era para cuidar pra não ficar cicatriz. Ele ria, mas eu falava sério. Não queria marca nenhuma em mim. Eventualmente eu me ralava enquanto tentava os movimentos e era claro que uma hora ia me machucar de verdade. Até que um dia aconteceu.

Eu estava entrando na cozinha no dia que bati a cabeça na quina do balcão. Não foi uma batida muito forte, mas o suficiente para que fizesse um corte na minha cabeça e me deixasse vendo estrelas. O Chuck, nosso labrador surdo, estava deitado na sala, não viu nada acontecer. Mas minha mãe ficou em pânico quando viu o sangue escorrendo pelo meu rosto. Aconteceu quando eu conversava com o Arthur enquanto ia até a geladeira. Era certo que ia dar algum problema. Ele estava do meu lado enquanto eu caminhava distraída contando sobre a famigerada manobra. Eu gesticulava animada e imitava o movimento, até que bum! Cabeça na quina, buraco no testa, sangue tapando minha pele e minha mãe desesperada não sabendo o que fazer primeiro. Botou a toalha para estancar o sangue numa mão e na outra o telefone. Desesperada, ela pressionou o telefone contra a minha testa para conter todo aquele sangue em mim.

– Calma, mãe – eu falei. E devolvi o telefone ensanguentado para ela.

Ela tremia enquanto corrigia, me entregando a toalha molhada. Segurou forte meu braço, me levando para o carro. Pedi para o Arthur ir junto. Ele me olhava estranho e eu fiquei preocupada.
Íamos nós três para o hospital. Minha mãe disfarçando o nervosismo, o Arthur com os olhos fixos e esbugalhados e eu ensanguentada enquanto via a chuva pela janela.

O carro parou. Muito trânsito, muita gente, não tinha como ir pra lugar algum. Minha mãe ligando para o hospital, o Arthur chorando baixinho e eu me perguntando que horas eram. Eram quase 15h, lembrei que recém tinha visto no relógio da cozinha antes do acidente.

– Filha, tudo bem?
– Uhum
– Como está o sangue?
Tirei a toalha da testa e vi que já estava seco.
Ela me olhou e passou a toalha no meu rosto para limpar o sangue que tinha me sujado.
– Vai demorar pra chegar? – perguntei.
– Não sei, não temos por onde ir. Estou ligando para a emergência para ver o que podemos fazer.

Fechei os olhos. Já estava cansada e minha testa latejava muito. Fiquei pensando em quantos pontos levaria e se a cicatriz me deixaria estranha. O barulho da chuva foi me acalmando. Segurei a mão do Arthur e ele abriu a minha janela. Coloquei a cabeça para fora e abri a boca. Engoli um pouco de chuva e deixei ela molhar meu rosto.
Cada gota gelada que caía em mim me limpava. A chuva aumentava e lavava meu rosto, meu cabelo, meu pescoço. Minha lucidez voltava.

Eu estava em casa. Ainda. O Chuck lambia minha cara enquanto eu abria meus olhos. Olhei pro lado e vi o Arthur deitado, de mãos dadas comigo, me olhando. Eram 15h. Tentei me levantar mas minha cabeça estava muito pesada. Passei a mão na testa e vi muito sangue. Pedi para o Arthur ligar para a minha mãe.

– Diz para ela ligar para a emergência. Estou sangrando.

O Arthur ficou me olhando. Ele segurava minha mão, cada vez mais forte.

– Liga! – falei mais alto e comecei a chorar.

Ele não se movia. Estava igual a mim, estático. Estava igual a mim, deitado no chão, de mãos dadas, chorando, incapaz de se levantar e ligar para a minha mãe. Eu implorava para que ele fizesse algo, mas ele só me olhava assustado.
Tentei me acalmar. Lembrei que próximo a esse horário a vizinha vem pra dar comida ao Chuck. Ela vai me ver. Eu vou estar aqui deitada e ela vai me ver. Eu bati com a cabeça na quina de cozinha. Um bom lugar para se machucar. O meu skate ficou na sala. Ela vai ver o skate, entrar na cozinha, pegar a ração, me ver e me salvar. Tudo estará bem.
Tudo ficará bem.
Tudo ficará.
Tudo.
Tu.

– Vem Chuck, fica aqui comigo. O Arthur não está muito bem hoje.

Sacha – carta 3

Deixei passar seu aniversário de propósito. Foi na semana passada. Me lembrei uns dias antes e outros depois. No dia mesmo, esqueci. Você faria 33. Pensei que talvez não se deva comemorar aniversário de vida de quem não está mais aqui. Preciso pensar melhor sobre isso.

Mas hoje, sete dias depois eu lembrei de você e chorei. Chorei porque terminei de ler um livro em que os protagonistas morrem, nenhum ao acaso como foi com você, mas me deu um nó na garganta, quis saber como ficaram todas as outras pessoas da história. É um livro sobre vidas que existiram. Acho que vou escrever pra autora e perguntar como ela se sentiu, pra ver se foi como eu. Se depois de alguns anos a dor diminuiu ou se toda vez que ela pensa por tempo demais neles, dói igual. Deixa pra lá.

Quando eu tinha 24 anos, eu achava que você ainda tinha muito pra viver e que se foi muito cedo. Hoje, eu aos 27, me questiono sobre a minha vida, se a vivo como gostaria de ter vivido no dia em que eu morrer. Não quero partir com a sensação de que não fui significativa. Ok, depois que morrer não há nada o que fazer, mas não posso deixar de pensar nisso enquanto estou aqui. Não quero ir no começo de alguma coisa. Não posso morrer agora. Eu começo todo dia uma coisa nova. E se eu morrer antes de acabar de escovar os dentes, como fica meu hálito? Ou quando finalmente terminar de juntar dinheiro pra comprar um apartamento, como vou fazer a mudança? E se na véspera de uma viagem muito aguardada acontecer alguma coisa? Não vou conhecer nada? Como fica tudo que eu não terminei? Tudo que não comecei? Como ficam todos que ficam?
As últimas vezes que te escrevi eu estava mais positiva. Não que eu não esteja num momento bom, não confunda. Mas hoje a vontade de te escrever veio depois de um momento mais melancólico.

Uma carta por ano. Antecipei a terceira. Nos dois últimos novembros eu mentalizava bastante para não chorar no dia do seu novo aniversário (nunca deu certo, sempre chorei). Ou de não lamentar por você não estar mais aqui. Não devo me lamentar, não há nada que eu poderia ter feito. Mesmo se houvesse, não caberia a mim a sua vida. O pior da morte é essa impotência que dá na gente. Mas nas outras vezes o trabalho mental funcionava e o texto saía florido, com saudades amorosas e lembranças afetuosas de tempos que não voltam mais. Porque nenhum volta. Nem dos que ainda estão vivos.

Bom, os parabéns atrasados não parecem fazer o menor sentido, então só deixo essa foto linda que encontrei outro dia na casa da minha mãe. Nós dois. De tempos que não me lembro, com cara de foto ao acaso. Só de nos ver já fico feliz. Eu com a cara igual a sua. Não essa que você tá na foto, mas com a sua outra cara. Aquela que vejo em mim todos os dias.

Saudades do seu abraço,

Lígia

*Pensei muito em publicar o texto, mas toda vez que leio alguém que compartilha a dor – especialmente a da morte – me sinto acolhida. Então espero que essa carta aberta sirva de alguma forma pra outras pessoas que assim como eu sentem falta, sentem medo, sentem dor.

Fernanda

Fernanda tem 11 anos e na escola é conhecida por ser mentirosa (é verdade). Recentemente denunciou um colega por ter pego o lanche de outro. Que injustiça! Apesar disso realmente ter acontecido, o ladrãozinho jurou de pés juntos que foi ela quem roubou. E por conta da sua fama, ficou de castigo em casa.

Ruiva como uma abóbora e magra de achar que as costelas irão rasgar sua pele, sonha com os seios fartos que vê nas mulheres da revista. Pergunta se um dia será tão importante quanto sua mãe e se tão adorada quanto a menina popular da turma. Toda vez que pensa no futuro, acredita em mentiras. Um dia o espelho irá arrancar fora seu sorriso.

Mas não se abalem! Fernanda tem amigos e sempre fala deles. Todos a chamam de Fer. Ela sempre gostou desse apelido, até descobrir que na verdade Fer vinha de “ferrugem” e isso a fez chorar por alguns dias seguidos, mesmo que isso ainda faça tantos amigos rirem.

Fer tem um irmão mais velho. Loiro. Todos os amigos acham que é mais uma mentira, já que nunca o viram. Mas é verdade que ele existe. E também que se matou fazem 2 anos e os pais contaram outra história. Ela acredita que o irmão foi morar com a vó na Alemanha para aprender uma nova língua. A avó alemã que nunca conheceu também nunca existiu. De vez em quando Fernanda pede aos pais pra ficar com o irmão. Talvez algo dentro dela saiba que para isso precise morrer e esse é o desejo mais verdadeiro sobre o qual ela mais mente.

Ela tem um tipo de mentira que funciona bem: alergia. (Também confundir com alegria.) Contou ser alérgica à flor para não ter que segurar uma, na vez em que um amigo pediu essa gentileza para que ele pudesse vestir o casaco. Nunca mais se viu em situação parecida. Outro dia pediu ao seu pai que não fosse à aula por conta da sua alergia ao sol. Não era uma mentira completa, já que em poucos minutos de caminhada ficava com seu cabelo mais vermelho que tomate maduro e sempre chegava na escola suada e fedida. O pai não respondeu. Talvez ele só não tenha ouvido.

Nas tardes que está sozinha em casa (quase todas), Fer assiste “Carrie – A estranha”. Sim, sempre o mesmo filme. Ela repete as falas da protagonista e imita com um tom de voz diferente cada vez. Finge que está no filme e até uma roupa parecida usa. Já decorou quase todos os diálogos. Mentira. Ela nunca fez isso de verdade, mas sempre pensou que seria legal fazer.

No próximo mês completa 12 anos. Dizem que essa é uma boa idade, o corpo das meninas mudam, os garotos começam a se interessar mais por elas e as notam de forma diferente. A ideia de ser vista de outro jeito é agradável. Mas calma lá, Fernanda. Você ainda terá muito desaforo para ouvir e decepções para viver. Alguns meninos não serão legais, seus peitos não irão crescer e você não será importante como sua mãe. Vão dizer que ser magra é bom, mas isso não significa que será o suficiente para você se sentir bonita. Mas não se preocupe. Algumas pessoas simplesmente não dão certo mesmo.Colagem - Fernanda